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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Eu quero silêncio.

     
       Barulheira geral em sala de aula. Conversas paralelas, risadas, cantorias. Bolinhas de papel voam de cá pra lá e até mesmo um aviãozinho (daqueles que eu nunca consegui fazer) flutua lentamente pela sala até pousar na mesa da professora, para a alegria dos meninos sentados ao meu lado. Eu reviro os olhos e tento me concentrar no livro à minha frente, provavelmente o quarto ou quinto de Harry Potter.
       Era o quinto ano. Meu gênio e minha obsessão por controle ainda estavam por ser controlados (se é que eu posso dizer que hoje estão) e, pra completar, eu era a líder de sala. Era minha responsabilidade mandar naqueles diabinhos que não conseguiam ficar calados entre a troca de professores - ou pelo menos, era assim que a minha versão de dez anos encarava o título.
       A professora entra em sala, a aula de matemática já deveria ter começado a pelo menos quinze minutos, mas os aborrecentes do nono ano prenderam nossa mestra por tanto tempo que já havíamos perdido quinze minutos de aula, dos quais cinco com certeza aquela senhora baixinha havia perdido tentando chegar até a nossa sala com seus passinhos curtos. Era uma escola enorme, afinal.
       Eu amava aquela sala. Passara os últimos três anos esperando pelo momento em que alcançaríamos o fim do corredor,e ainda podia me lembrar do percurso que fazia, dia após dia, a mão direita correndo pela parede, acompanhando com os olhos as aulas que se passavam nas salas que faltavam para eu chegar ali. E agora, aqui estava. Não fazia tanta diferença assim, na verdade. As paredes tinham a mesma coloração que todos os outros recintos da escola, a mesma pintura emoldurada do nosso fundador repousava acima do quadro branco, até a maçaneta da porta era de mesmo fraco metal (todos os anos quebrávamos pelo menos uma). Mas aos meus olhos, aquela sala era diferente de todas as outras. Ela representava a liberdade.
       Algumas decisões importantes seriam tomadas até o final daquele ano, e mesmo estando na metade do primeiro trimestre, eu já sentia isso. A possibilidade de mudar de escola me excitava, e mesmo que não se concretizasse, um novo mundo se abriria pela minha frente. O sexto ano representava o fim do ensino fundamental II, e o fim do corredor. Literalmente, havia ali uma virada na minha vida.
       Mas voltemos por um minuto à situação em que eu estava. A professora já chegara e minhas tentativas de silenciar uma sala de quarenta alunos de dez anos que falam gritando provaram-se absolutamente frívolas. Minhas faces à época morenas (acreditem ou não, mas eu amava ir à praia) encontravam-se coradas de tanto esforço, e o suor provavelmente já havia grudado os meus cachos rebeldes à minha nuca. Virando-se para ver a reação da educadora perante todo aquele tumulto, assustei-me com a serenidade que dominava seu semblante. Ela nem mesmo se movia, parada em pé diante da sala. Recostada à parede, esperava pacientemente pelo silêncio dos meus colegas.
       Após alguns minutos, notou o meu olhar de desentendimento e deu um sorrisinho, mas voltou a olhar pra sala e aguardar pelo fim da bagunça.
       Não demorou muito. Os risos pararam repentinamente, os olhares tornaram-se amedrontados, as bocas se fecharam com uma rapidez surpreendente. Eu, parada no meio da sala, olhava da professora para os meus colegas como quem questiona a existência de bruxaria em uma escola católica. A calmaria não substituiu a animação, mas sim a tensão, sua amiga íntima. Abobalhada, voltei para minha cadeira, e encarei a professora. A única diferença é que eu era provavelmente a única da sala que não estampava no rosto uma expressão de medo, e sim de confusão.
       E bem naquele momento, como se despertada pelo silêncio, a professora deu sinal de vida. Descruzando os braços, um sorriso desdenhoso deu lugar à expressão sem vida e pronunciou as palavras que me acompanhariam por anos a fim, sempre me fazendo questionar o meu modo de liderança e minha forma de viver a vida em geral: "Quem quer silêncio, faz silêncio."

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Eu nunca tive medo de cair.

       Eu acho que sou masoquista.
       É única explicação racional que encontrei até agora pra justificar essa meu eterno otimismo.
       Mesmo com tudo caindo, quebrando, se estragando. Mesmo com as pessoas mentindo, enganando, maltratando. Mesmo comigo falhando, cansando, errando.
       Eu gosto de decepções.
       Eu gosto de me decepcionar.
       Gosto do gosto amargo do fracasso, como veneno que escorre pela minha boca e cai no chão apenas pra provar que eu não mereço atenção.
       Gosto de ser esquecida. Gosto de ser deixada de lado. Gosto de cair, de me machucar. Gosto de não ser ouvida.
       Faz parte de quem eu sou.
       Talvez um dia eu me canse e pare de ser assim. Mas por enquanto, vou continuar caindo e abraçando o chão que me segurou.

sábado, 19 de outubro de 2013

Perdoe-me se não consigo seguir seus padrões de "normalidade"...


   ... Mas a verdade é que eu gosto de acordar de manhã já cantando a plenos pulmões músicas da minha velha infância. Eu gosto de tomar banho de água fria, de tomar leite com nescau e do cheiro de café que parece ter penetrado nas paredes da cozinha. Eu gosto do cheiro do meu perfume, o mesmo que minha mãe costumava passar em mim quando eu não era nada mais que um bebê. Gosto de falar muito alto, de chamar muita atenção. Gosto de sussurrar, de desaparecer, de observar tudo de uma distância segura e fingir que não estou ali. Depende do meu humor no dia.
       Gosto de imaginar como seria a vida se eu nunca tivesse nascido, gosto de imaginar como seria a vida se eu morresse agora. Gosto de tirar o juízo dos meus amigos, de perguntar tudo o que vem à cabeça aos meus professores. Gosto da comida da cantina. Gosto de reclamar. Gosto de escrever poemas. Gosto de pintar - mesmo que seja horrível nisso. Gosto de correr feito uma louca. Gosto de dançar. Gosto de abraços, ah! Como gosto de abraços.
       Gosto de ser a mesma pessoa desde sempre, o mesmo bebê risonho de quatro anos, a mesma criança tagarela de sete, a mesma sabe-tudo de dez, a mesma inocentemente rebelde de quinze. Sou fiel ao meu passado, e sempre olho pra trás na esperança que o meu próximo passo seja motivo de orgulho da minha "eu" de oito anos. Aquela que se agarrou ao carrossel do Horácio e chorou porque nunca queria crescer. Eu ainda sou aquela garota, aquela garota ainda sou eu. E você? Seu eu de oito anos se orgulharia de você? Que tal se preocupar mais com ele do que comigo? Muito obrigada e passar bem.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O que é felicidade?

     
       Felicidade é um conceito aberto. Mas como não posso (nem me sinto no direito de) escrever sobre o que é felicidade para outras pessoas, contento-me em tentar explicar o que é felicidade pra mim.
       Felicidade é ser capaz de amar. É sentir o seu coração batendo e saber que há um propósito por trás disso. É ver uma pessoa feliz e ser capaz de sentir a felicidade dela.
       Felicidade é ser capaz de ser amado. É então, se amar e saber que sendo você mesmo, os outros também te amarão, do jeitinho que você é.
       Felicidade é um sorriso de uma criança, uma piada sem graça que escapa dos lábios mas que te faz rir do mesmo jeito. É encontrar um amigo que não vê há muito tempo, completamente por acaso. É cheirar livros velhos e novos.
       Felicidade é tomar banho de chuva e de mar. É sentir cheiro de bolo e pão quentes. É brincar com um bebê.
       Felicidade é ter esperança. É sonhar, muitas vezes acordado. Felicidade é aquilo que nos deixa feliz, aquilo que dá sentido a nossa vida.
       Felizmente, eu sou feliz.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A vida pela janela

       Eu sendo silenciosa é uma coisa assustadora. Dia desses, estava sentada no carro - que havia acabado de ser lavado - com papai, e não falava nada, apenas olhava pela janela enquanto fazíamos o percurso para casa. Em determinado momento, papai perguntou se eu estava bem, porque eu estava muito calada. Eu só balancei a cabeça e tentei explicar o que estava pensando.
       Não era tanto a paisagem que me fascinava, afinal, aquele caminho me era conhecido. Eram as janelas, os vidros limpos. Não que o carro do meu papai, vivesse sujo, claro. A verdade era a semelhança que aquela janela limpa tinha com a vida que certas pessoas levam.
       Talvez você já tenha escutado o ditado "Todas as pessoas existem, mas só algumas vivem". Para mim, aquele vidro sintetizava o que essa simples frase queria dizer. A verdade é, enquanto muitas pessoas arriscam-se a baixar os vidros e deixar o ar entrar, a chuva, os sons, a vida, muitas outras tem medo. Ou preguiça. E por isso, não vivem realmente. Suas existências se resumem a olhar pela janela, observar a vida real acontecendo, mas não tomar parte dela.
       Claro que manter o vidro fechado tem suas qualidades. Você se protege. Dos pingos molhados. Da podridão do ar. Da violência. Mas não há escolha. Você acaba por fim também se protegendo do vento nos cabelos. Dos cheiros da padaria. Dos risos no ar.
       Afinal. Você vive ou existe?